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Discutível, menos quanto aos propósitos
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Metadados
Número de Registro
AD.ONAT.00066
Autoria
Descrição
Discutível, menos quanto aos propósitos
O público entra no teatro (se é que o local pode assim ser chamado) e, meio que tateando na penumbra, senta-se onde for possível, já que não há separação entre platéia e palco. Essa entrada, nesse clima escuro, já com os atores em cena, intimida um pouco. Como de resto toda a apresentação de O Sentido do Corpo, pelo grupo Oi Nóis Aqui Traveiz, intimida, mesmo que haja cenas agradáveis, afetuosas. A proposição tem algo de plástico, embora não o seja de todo. É teatral, mas ultrapassa também essa condição. Predomina a idéia de um posicionamento crítico (que o grupo vem mantendo desde seu primeiro espetáculo), de ordem filosófica - emotiva - sensitiva. Chega a ter conotações psicanalíticas.
O grupo propõe a utilização do corpo como elemento sensitivo de todas e quaisquer emoções. De início, há um descobrir, um aprender a tocar. São quatro atores e uma atriz que, já desprovidos de barreiras (simbolizadas pelas "roupas" de plástico que têm, também, um efeito sensitivo e táctil adicionais), se tocam e se investigam. O visual é epidérmico mesmo, uma mistura de membros e corpos, onde o sexo dos indivíduos envolvidos e o caráter provocante e onde o erotismo pode ser um elemento a considerar ou não, dependendo da subjetividade de quem vê. Numa sociedade repressiva fatalmente não acontece.
[Foto central com legenda:] "O Sentido do Corpo": predomina o posicionamento crítico do Oi Nóis Aqui Traveiz
Isso transparece quando a música de Albinoni acaba e os corpos se contorcem, e há gritos e advém uma intencionalidade progressiva que culmina na imitação dos símios, onde até a urina é um elemento a mais a chocar os espectadores (o espetáculo é quase desprovido de textos - como acessórios visuais tem apenas a iluminação e filmes bonitos relacionados com a movimentação cênica). É mais ou menos quando a "agradável música de Albinoni retorna, que os corpos "renascem" após a catarse, voltam a acariciar-se e procuram envolver diretamente a platéia, que, a essa altura, já é parte integrante do conjunto.
Se o público participa mesmo - quer na condição de objeto que reage às situações, quer com efetiva autenticidade - isso é discutível. E igualmente também a forma de conseguir esse público: será que, se os momentos digamos, afetuosos, fossem plasticamente mais belos (como é claro, chegar-se ao extremo de um balé da mão seria obter uma correspondência maior dos assistentes? Tudo é discutível em O Sentido do Corpo, menos a autenticidade das proposições do Oi Nóis Aqui Traveiz. Um indicador certo de que os objetivos estão sendo atingidos está no debate que se verifica depois da apresentação, em primeiro lugar, ninguém vai embora antes do final (como é comum nas peças do grupo), e, em segundo, todos fazem questão de participar da discussão. Poucas pessoas, mesmo as mais despreparadas, ou menos predispostas à abertura físico-emocional, recusariam o debate. Lamentável é, no caso, a altitude de quem "tira o time de campo" antes mesmo do jogo. Havia uma participante do espetáculo, que se recusou a permanecer com seu texto e slides porque "não concordava com a proposta". Lamentamos que Vera não tenha percebido que a sua repugnância ocorre também a nós, e a todo mundo. E lamentável que ela ainda não tenha se dado conta de que esses aspectos — a irracionalidade e o animalesco que todos nós temos, ou, à própria falta de higiene que também se pode comentar, são o de menos relevante na experiência, onde se põe em cheque uma série de conceitos de mais extrema importância, necessidade e significado.
Data
1979
Local de Produção
Denominação
Materialidade
Marcas e Inscrições
PROGRAMA GERAL


