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IV Festival de Teatro: sem atrativos
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Metadados
Número de Registro
AD.ONAT.00215
Autoria
Descrição
Nelson Abott de Freitas. A primeira semana do IV Festival de Teatro de Pelotas (fase estadual), promoção da Fundação e da Fundação Teatro Sete de Abril, realizou-se de 15 a 20 de agosto. E, embora não tenha exibido espetáculos grotescos e improvisados, ferindo o bom gosto do público, como se viu nas edições anteriores, foi no seu todo, um evento pobre, com pouco atrativo. Mas, porém isso dizer que não houve a tentativa de fazer um IV festival mais organizado e com mais qualidade. Houve, sim. Tanto que o júri de seleção funcionou bem, se preocupou com qualidade, querendo propiciar ao público bons espetáculos; querendo até fazer vista grossa ao mau gosto de improvisos, sem sentimentos bairristas: ótimo caminho. Agora, se houve justiça na seleção, se realmente ficaram os melhores, já é outra conversa. Não se faz, aqui, para-rhuma censura e em-momento algum se duvida da sensibilidade e senso crítico da comissão julgadora, formada por pessoas respeitáveis da cidade; o que se questiona é a validade de uma seleção através de vídeo. Acho tão difícil apreciar teatro por vídeo quanto a pintura, por fotografia. E quando os teatristas se porgunlavam, após cada espetáculo — "Mas o critério de seleção foi a qualidade?" — era da se ficar pensando. Por outro lado, também poderia, quem sabe, se acenar com esta outra verdade: escolhem-se os menos ruins quando não há o que escolher. ABERTURA COM BRILHO. Mas, fora do pórco, houve a exceção, na abertura, dia 15, com o estufante e belo espetáculo popular — A História do Homem que Lutou sem Conhecer seu Grande Inimigo — encenado na rua, às 17h de uma tarde de chuva, por conta do grupo porto-alegrense Terreira da Tribo de Atuadores "Oi Nóis Aqui Traveiz. Foi o mais entusiasmante momento do Festival. Esse espetáculo foi uma festa. Palhaços em pernas-de-pau. Tambores, cores, alegria e barulho na rua, chamando o público para teatro que conta a história do Zé da Silva, o homem cansado de esperar, acabrunhado, desempregado, ferido em seu afetividade pessoal, sem forças, exaurido e morto pela fome. A peça, a partir do trabalho de Augusto Boal — "A Revolução na América do Sul" — denuncia a fome, a opressão, os-mecanismos de alienação impostos pelo governo, a corrupção, falando de problemas variados: mulúnacionais, saúde, leis trabalhistas e TV. Nem mesmo a Igreja se salva. Um trabalho feito com muita graciosidade e movimento, explorando o humor do circo e o clima da comédia farsesca, com um elenco homogêneo que cria sabiamente o tempo todo cenas ritualsmas de fluência e complicidade. O grupo porto-alegrense, especializado em teatro de rua, consegue manter a atenção do público por quase duas horas — de pé sob a garoa — e mostrar cansaço, seguindo interessadamente o espetáculo. Foi o elenco trabalhada emocionado, demonstrando expressividade e espontaneidade nos menores movimentos. Uma pa- Teatro na rua: o melhor da festa cn alegre, sem monotonia, sem vulgaridade e apelação, — não se ouviu um palavrão e nem se viu um gesto obsceno — diferente, mas fazendo o público rir, pensar. Aí está o grande teatro para o povo. O teatro informal — o bem feito, levado às praças, bairros e vilas, como o teatro de Molière, vivo e colorido, brincando e dizendo verdades. O Grupo Terreira da Tribo tem forte vínculo com o povo, porque é a partir das raízes culturais, interesses, sentimentos e aspirações desse povo que eles buscam o texto e elaboram a sua proposta estética. O povo, então, se identifica com as personagens exibidas, vibra e se emociona, e talvez passe a gostar de teatro. Bem-vindo ao 4° Festival é esse grupo gaúcho.
Data
23/08/1988
Local de Produção
Denominação
Materialidade
Estado de Conservação
Palavras-chave
Festival; Teatro de rua


