Descrição
Este artigo de Luiz Carlos Barbosa traça um perfil do grupo teatral gaúcho "Ói Nóis Aqui Traveiz", que em 1981 completava oito anos de existência. O grupo foi criado pelo ator Paulo Flores, formado em direção pela UFRGS, e se destaca por combinar influências de Antonin Artaud e Jean Genet em uma proposta cênica ritualística que busca transformação social. Seus integrantes se autodenominam "atuadores" em vez de atores.
A trajetória do grupo começou em um casarão na Ramiro Barcelos, onde apresentaram peças como "A Divina Proporção" e "A Felicidade Não Esperneia, Palatí Patatá". Inicialmente foram ignorados tanto pelo público quanto pela imprensa, enfrentando forte resistência devido à radicalidade de sua proposta, que incluía nudez explícita e eliminação do espaço cênico tradicional. O crítico Cláudio Heemann, que foi o primeiro a escrever sobre o trabalho de Paulo Flores, considera o grupo "o fato mais importante dentro do teatro gaúcho na década de 70", representando uma ruptura radical com os padrões vigentes.
Após perseguições e pressões que os forçaram a deixar o espaço inicial, o grupo passou a viver em comunidade e encenar nas ruas, mantendo-se coerente com sua proposta. Na época do artigo, apresentavam "As Domésticas", versão coletiva de "As Criadas" de Genet, e administravam uma lancheria natural como forma de sustentação econômica através de autogestão. O grupo defende que teatro e vida estão unidos, que a arte não pode ser isolada da política e dos problemas da cidade, realizando performances de rua sobre questões sociais como agrotóxicos. O crítico Antonio Hohlfeldt define o Ói Nóis como "um grupo essencialmente político" com "um discurso razoavelmente coerente".