Descrição
Este artigo analisa a trajetória e as características do grupo de teatro experimental Ói Nóis Aqui Traveiz, que surgiu em Porto Alegre em 1978 conduzido por Paulo Flores. A proposta inicial do grupo questionava radicalmente o teatro da cidade, praticando até então uma atitude de repúdio às convenções estabelecidas. O palco se derramava no cotidiano dos espectadores, realizando uma proposta de rompimento com a linguagem e a postura tradicionais. O grupo surgiu num espaço próprio e alternativo, uma garagem que tinha sido boate, fazendo-se notar pelo inconformismo, ímpeto revolucionário e anarquismo, além de intenções devastadoras.
O Ói Nóis utilizava técnicas de choque para tratar temas sociais, induzindo acontecimentos do dia a dia e rompendo com os lugares comuns da burguesia. No espaço cênico ou fora dele, ou na transformação de qualquer lugar em espaço cênico, levantava suas convicções para fora do momento da representação. Representando suas ideias em qualquer lugar ou instância do existir, a anarquia contestatória, o ritual surrealista, a agressão à plateia, o nudismo desbragado, a força simbólica da encenação, o grotesco e a imagem onírica, as denúncias panfletárias contra a opressão e o absolutismo, a revolta irracional, a interferência no cotidiano pessoal e o manifesto contra as forças de dominação e o capitalismo marcavam a identidade do grupo.
Através de adaptações especiais, o Ói Nóis Aqui Traveiz aproveitou autores como Genet, Beckett, Brecht e Augusto Boal, sempre mantendo o nível das montagens com sofridas oscilações, mas num sentido constante de crescimento do grupo e de coerência temática. Fiel ao ideário de reforma e denúncia que se impõe, a intensa atividade do grupo em oficinas, sessões de teatro e experiências de laboratório constituíam uma equipe de sustentação sempre renovada que trabalhava no sentido de aproveitar a sobra de contribuições numa orientação coletivista proporcional. Chegando agora aos onze anos de existência, o Ói Nóis Aqui Traveiz, sediado em seu segundo espaço cênico (a Terreira da Tribo), continua com o mesmo ímpeto e a preocupação de ruptura em relação à ordem e aos códigos dominantes que usou ao surgir de modo jovial, sonhador e juvenil.
A coerência com suas bases de lançamento e persistência no caminho escolhido parece ter amadurecido e solidificado sua posição ao longo do tempo. Nenhuma das premiações oficiais destinadas ao teatro gaúcho foram conquistadas pelo Ói Nóis Aqui Traveiz em realizações como "Fim de Partida" (1986) e "Ostal" (1987), demonstrando a inquietação do conjunto que permanece convicto de sua marginalidade em campanhas e combates, sempre alerta quanto à situação contemporânea. Buscando deflagrar onde quer que surja um assunto ou tema socialmente sensível, o grupo mostra-se político e revolucionário, crucial e persistente no agitar de sua bandeira. Nenhum outro grupo teatral tinha antes levado o comprometimento com causas sociais a este nível de identificação. O Ói Nóis Aqui Traveiz procura vivenciar e participar das crises do mundo das quais ele é ao mesmo tempo reflexo, com uma originalidade expressa que confere uma posição especial no panorama do teatro de Porto Alegre.